Quem vai pagar a dívida cognitiva deixada pela inteligência artificial?
- Felipe Scalabrin

- há 9 horas
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A chamada “inteligência artificial” chegou com tudo. Rapidamente tomou conta de todos os espaços comunicativos. A invasão pode ser considerada sem precedentes. O uso de modelos de linguagem de larga escala (LLMs) como assistentes de estudo parece ser uma realidade inevitável. Em 2025, porém, uma pesquisa preliminar trouxe dados preocupantes sobre o impacto dos modelos de linguagem no cérebro humano.
A pesquisa investigou o custo cognitivo do uso de LLMs na educação, com foco na elaboração de ensaios. Para tanto, o experimento dividiu os participantes em três grupos. O primeiro utilizava a ferramenta ChatGPT para elaborar os textos; o segundo, pesquisas em ferramentas tradicionais de busca; o terceiro, sem nenhuma ferramenta, só a atividade cerebral. Ao longo de quatro meses, foram realizadas as sessões, com análise de eletroencefalografia (EEG), de Processamento de Linguagem Natural (NLP) e entrevistas.
O resultado não surpreende quem é da área da educação. O primeiro grupo apresentou desempenho significativamente inferior na capacidade de citar frases de seus ensaios recém escritos. Além disso, os textos ficaram todos muitos similares, com homogeneidade e pouca variação de vocabulário. Na análise cerebral desse grupo, foi apurada redução na carga cognitiva necessária à construção de esquemas mentais e retenção de conhecimento. Ao reduzir o atrito cognitivo, o ChatGPT também atenuou a avaliação crítica sobre o que foi elaborado. Enquanto isso, no grupo sem ferramentas houve mais engajamento cerebral, refletindo em mais demanda interna por semântica, criatividade e controle executivo. A ausência dessa demanda pode levar a uma perigosa dívida cognitiva.
A dívida cognitiva surge quando o uso repetido de LLMs troca o esforço cognitivo pela resposta pronta do modelo de linguagem. No curto prazo, o usuário troca o esforço mental pela conveniência da inteligência artificial, gerando um atalho para concluir a tarefa. No longo prazo, porém, conforme a pesquisa, isto pode gerar um desengajamento das redes neurais, o que pode comprometer a consolidação de memórias, a codificação semântica e a formação de senso crítico. Quando o cérebro deixa de realizar o trabalho de planejamento e estruturação das ideias, esses circuitos neurais não são fortalecido. É como se deixássemos de fazer os exercícios físicos mínimos para manter um corpo saudável. Só que no cérebro.
A facilidade com que cada resposta é obtida e cada texto é elaborado seduz não só o estudante, mas a grande maioria de profissionais que lindam com atividades relacionadas à linguagem. Em algum momento, porém, a conta vai chegar. Quem vai pagar o débito cognitivo deixado pelo uso da inteligência artificial?
* Prof. Felipe Scalabrin
Referência
KOSMYNA, Nataliya; HAUPTMANN, Eugene; YUAN, Ye Tong; SITU, Jessica; LIAO, Xian-Hao; BERESNITZKY, Ashly Vivian; BRAUNSTEIN, Iris; MAES, Pattie. Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task. arXiv, 2025. Disponível em:
, Acesso em: 19 fev. 2026.




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